Foi com algum espanto, para não utilizar a palavra revolta, que ouvi o bastonário da ordem dos Médicos, dizer que a introdução de sistemas de controlo de assiduídade, apenas piorava a qualidade dos actos médicos! Da mesma forma, ouvi a notícia que 19 directores clínicos do Hospital Pedro Hispano pelo mesmo motivo, tinham apresentado a sua demissão!
Sabemos que existem profissões que exigem, elevados padrões de ética e responsabilidade, e cujos profissionais, devem ser os primeiros a darem o exemplo. Sabemos também, que na classe médica existem profissionais abnegados, que por vezes colocam os interesses dos seus pacientes à frente dos seus próprios interesses. Isso ninguém discute e é de louvar!
No entanto, assumir que numa determinada profissão, apenas existem profissionais com bom carácter, com elevados principíos éticos e de responsabilidade, é no mínimo, viver na utopia!
Infelizmente a classe médica e de enfermagem não é diferente das outras profissões. Deixar o funcionamento das instituições apenas na base do "bom senso e de auto-regulação", é apenas a melhor forma de criar condições para que o sistema funcione na base da mediocracia ou pior, na base do nívelamento por baixo. Há bons profissionais nestas classes e estes devem ser reconhecidos, o que não pode ccontinuar a haver, é o principío, função igual, reconhecimento igual.
O bastonário da Ordem dos Médicos deveria ser o primeiro a defender o principío da méritocracia, apoiar a introdução destas medidas, porque quem não deve não teme. Ou será que o que está em causa, é o de permitir a continuação da existência de situações menos claras, como foi dito pelo próprio que "..não é necessário o médico estar sempre ao lado do doente..". Pois não, mas também não pode continuar a acontecer é que, médicos adestritos a tempo inteiro ao serviço público, da parte da tarde estejam ausentes do seu local de trabalho e apenas "contactáveis por telemóvel"! Pior ainda, estando de serviço! A iniciativa privada, isto é, os consultórios privados, podem e devem funcionar como complemento, nunca em acumulação!Infelizmente no passado mês de Agosto de 2005, eu próprio assisti a uma situação destas no Hospital dos Covões, em Coimbra.
Os médicos e os enfermeiros em vez de perderem tempo com argumentos falaciosos, deveriam preocupar-se em melhorar o seu serviço de atendimento, quer aos clientes bem como aos seus familiares! Já agora, porque não começar com coisas simples, como por exemplo, colocando a sua identificação em lugar visível, não vá acontecer estarmos a falar com o maqueiro ou padeiro, em lugar de estarmos a falar com o enfermeiro ou com o médico! Ambos vestem de branco! Uma vez mais, esta foi a situação absurda que encontrei na enfermaria das mulheres no Hospital dos Covões, na mesma data.
É tempo de reconhecer a qualidade do nosso pessoal hospitalar, centrarem-se os debates no que é realmente importante e de uma vez por todas deixar-se o acessório! Ganharia a classe médica, os enfermeiros e sobretudo, os doentes! Essa é a razão da existência destas classes e não o contrário!
Colocar sistemas de controlo de assiduídade, permite que de uma vez por todas se acabe com as insinuações, que o tema recorrente de horas extras possa realmente ser aferido, e que uma vez por todas se comece a premiar quem realmente merce ser reconhecido!
Estou certo, que a classe médica e de enfermagem não quer ter tramento diferenciado ou beneficiado em relação às outras classes profissionais! Muito menos, que a opinião pública seja levada a concluir que, tal como as leis da física, uma reacção com esta demonstração de força, seja proporcional ao efeito causal nos interesses instalados!